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Carta de uma mãe que viaja a uma filha que fica

Querida filha,

Nesse exato momento, escrevo essas palavras para você do avião. Não espero que você as leia agora – afinal, você só tem quatro anos de idade. Mas, talvez, elas sejam de grande utilidade quando você for mãe, e precisar (ou decidir) se ausentar por algum tempo.

Devo começar dizendo que meu coração está apertado por deixar você. Sei que serão apenas três dias, mas considerando o tamanho da saudade e o tempo que levei com os preparativos, alguém de fora poderia ter a impressão de que ficarei fora três anos! Foram algumas semanas planejando quem a levaria à escola, quem buscaria, conversando com você para que entendesse qual era o plano e se acostumasse a ele. Deixei a casa abastecida – assim, espero que você e seu pai tenham tudo o que precisarem na minha ausência. Fiz uma lista de todas as atividades da sua rotina e a deixei com suas avós – não porque não confie que elas farão todo o necessário (muito pelo contrário, tenho certeza de que a encherão de cuidados, muito melhor do que sei fazer), e sim para tentar ajudar, mesmo estando em outro país. E como sou ligeiramente neurótica, deixei-a em papel, mas também enviei por WhatsApp, para ter certeza de que se precisarem, eu tenho uma cópia (aliás, notei que copiei duas vezes o telefone do pediatra, só para ter certeza de que os números estavam legíveis).

Imagem: 123RF
A imagem é proposital: porque tudo o que eu queria é poder te levar comigo sempre! Imagem: 123RF

Preciso te contar que a maior parte de mim está triste por te deixar um pouquinho (claro que chorei antes de embarcar e agora – mas fui forte para não derramar nem uma lágrima quando me despedi de você – afinal, tenho que te deixar tranquila), mas a outra está feliz. Em primeiro lugar, porque sei que você estará com pessoas que a amam muito, e sei o quanto elas estão alegres por terem a oportunidade de ficar mais tempo com você. Mas também porque é muito bom ter um momento para sentir que existo além da maternidade (sendo muito sincera, ainda não senti isso, mas antecipo um sentimento que acredito surgir até o fim da viagem. Por enquanto, ando apenas animada com a ideia de dormir uma noite inteira, sem interrupções!).

Se um dia você tiver um filho, saiba: não será fácil tomar a decisão de deixá-lo. Você pensará mil vezes, desistirá de algumas oportunidades, analisará se o momento é realmente oportuno, se ele já é grande o bastante para que sua ausência seja possível. Mas se depois de tudo isso você ainda quiser ir, vá. Porque, no fundo, todo mundo cresce com essa experiência: o filho, que enxerga um mundo maior do que aquele que normalmente vê, quando está embaixo das asas da mãe. E a mãe, que tem um instante para se lembrar que um dia o filhote voará, e que é importante manter uma identidade própria.

Talvez eu ainda não tenha dito o principal: que te amo muito. Que te amo tanto que passei a ter medo de voar de avião (não do voo propriamente dito, porque sempre gostei de voar; mas daquilo que atormenta todas as mães – a possibilidade de não conseguir voltar). Que logo depois da decolagem, eu já queria estar de volta. Que tenho vontade de registrar tudo, para te mostrar e sentir que você também fez parte disso (porque meu coração quase parou hoje cedo, quando você pediu para vir junto).

Estou indo, mas eu volto logo. E torço para que a minha saudade tenha sido muito maior do que a sua. Que você nem sinta minha ausência, e que abra um lindo sorriso quando nos encontrarmos novamente.

Te amo, querida, te amo sempre.

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